Alex Soares falando a real sobre Design

Gabriel Pinheiro
quarta-feira, 2 de abril de 2025
Depois de compartilhar no post anterior algumas reflexões sobre o momento atual do Design e apresentar o propósito dessa colab, chegou a hora de ouvir quem está na linha de frente, vivendo e construindo o Design de Produtos Digitais no dia a dia.
Na nossa primeira conversa, Alex Soares — designer, professor, mentor e autor — compartilha de forma generosa sua visão sobre os desafios e as oportunidades da disciplina. Ele fala sobre carreira, portfólio, desenvolvimento e, claro, sobre o futuro do Design.
A seguir, você confere a primeira de uma série de entrevistas pensadas para quem está começando e para quem já está no mercado, mas segue buscando caminhos nesse campo tão dinâmico, desafiador e transformador.
Boa leitura!
— Gabriel Pinheiro.
Falando a real sobre Design
Assim como a maioria, meu interesse pelo Design começou pelos aspectos estéticos. Sempre gostei de desenhar, e enxerguei na área uma oportunidade de explorar essa paixão. Porém, com o passar do tempo, percebi que o Design vai muito além disso. Descobri outros aspectos que me chamaram a atenção, como a possibilidade de compreender o comportamento humano por meio de estudos e pesquisas, e as ideias que surgem da colaboração entre diferentes perspectivas de perfis multidisciplinares.
Hoje, talvez o que mais me encanta seja a forma como o que criamos se conecta com o todo. Seja ao desenvolver sistemas ou ao projetar experiências em jornadas de navegação, tudo está interligado, formando novas histórias. No fim do dia, sabemos que nosso trabalho tem como objetivo potencializar os negócios, mas ainda assim me fascina o impacto que podemos causar na vida das pessoas, ajudando a traçar novos caminhos em suas histórias. Somos como escritores e o Design é o nosso papel e caneta.

1. Como você enxerga o papel do Design de Produtos Digitais nas empresas brasileiras?
Do meu ponto de vista, temos dois cenários claros: o papel do designer de produto como ele é atualmente e como ele deveria ser nas organizações. Embora existam profissionais que já atuam de maneira alinhada ao "como deveria ser", a grande maioria ainda está inserida no primeiro cenário.
Dito isso, percebo que muitos designers de produto estão mais focados nos entregáveis visuais. Embora essa seja uma parte extremamente relevante e essencial para a experiência que os usuários têm com produtos ou serviços, não basta termos uma interface impecável se todo o contexto ao redor apresenta experiências negativas. Muitos desses aspectos acabam sendo ignorados nos projetos, seja pela visão limitada de que designers deveriam se preocupar apenas com interfaces, seja pela falta de interesse dos próprios profissionais em olhar para esses outros pontos.
Mais uma vez, não quero generalizar, mas é evidente que uma parcela significativa dos profissionais da nossa área se preocupa mais com o fator estético. Basta observarmos o entusiasmo em relação a novas funcionalidades de ferramentas de Design comparado ao engajamento em discussões sobre estratégias de negócio. Nesse embate, o entusiasmo com as ferramentas vence com larga vantagem.
É importante destacar que designers não são "salvadores do mundo", mas acredito que podemos contribuir muito mais para os negócios. Temos o potencial de melhorar jornadas de serviços e produtos, mesmo quando não há interfaces envolvidas. Além disso, podemos aplicar abordagens e ferramentas de pesquisa para apoiar decisões estratégicas de forma mais imersiva e fundamentada em dados.
Embora muitas pessoas já vejam o papel do designer sob essa perspectiva ampliada, acredito que ainda há um vasto espaço para evoluirmos. Precisamos enfatizar o valor que podemos gerar para as organizações, colaborando de maneira mais profunda e estratégica.
2. Qual é o valor que o Design entrega e qual impacto pode gerar através do trabalho de um designer de produtos digitais?
Acredito que o maior valor que o Design pode entregar está na facilitação. Se refletirmos, um grupo de pessoas pode realizar algum tipo de processo criativo e entregar um produto ou serviço que seja rentável. No entanto, a presença de um profissional de Design como facilitador adiciona camadas importantes ao processo. Essa facilitação inclui compreender o comportamento das pessoas em relação ao tema abordado no projeto, garantir que diferentes perspectivas dos envolvidos na construção sejam contempladas e, por fim, criar um entregável – muitas vezes visual – que comunique a ideia de forma clara, intuitiva e econômica.
Quando a facilitação se concentra em fazer as perguntas certas, o grau de assertividade do projeto aumenta significativamente, além de incluir uma maior diversidade de ideias e pontos de vista.
É claro que, para que tudo isso funcione, não basta apenas investir em Design. É essencial que exista uma cultura sólida de Design e, principalmente, de produto dentro da organização. Essa base cultural é fundamental para que a facilitação aconteça de maneira eficaz. Quando esse cenário é implementado, vemos diversos cases de sucesso em produtos digitais, mostrando como essa abordagem é significativa para uma ampla gama de empresas que trabalham nesse mercado.
3. Quais são os principais desafios para quem busca trabalhar com Design hoje?
Penso que a resposta para essa pergunta se conecta diretamente com as outras que mencionei até aqui. Todo o valor que o Design pode oferecer por meio da facilitação, aliado à expectativa de uma atuação mais imersiva dos designers no negócio, tem se tornado uma demanda crescente das lideranças nas empresas. Vejo isso como resultado de dois fatores principais.
O primeiro está relacionado à cultura de produto, que, apesar de ainda ser relativamente nova no Brasil e no mundo, tem avançado significativamente. Nessa cultura, aspectos como escalabilidade e a identificação de novas oportunidades baseadas em dados têm ganhado cada vez mais destaque.
O segundo fator é a evolução da tecnologia, especialmente com a ascensão da inteligência artificial. Com mais tarefas sendo automatizadas, os esforços que antes eram direcionados a determinadas atividades agora estão sendo realocados para áreas estratégicas.
Por isso, acredito que o principal desafio para quem deseja atuar com Design atualmente é compreender esse novo cenário e identificar o que as organizações realmente esperam de um profissional de Design.
Embora o domínio de ferramentas continue sendo importante, aspectos como a contribuição estratégica, a leitura do momento atual e a capacidade de atender às novas demandas têm recebido cada vez mais atenção.
4. No seu contexto, quais são os principais desafios que você enfrenta atualmente?
Vejo que os principais desafios estão diretamente ligados à cultura de produto. Quando alcancei um nível sênior na minha carreira, tive a oportunidade de enfrentar o desafio de implementar uma cultura de Design em uma organização. Esse tipo de iniciativa, sem um repertório sólido e uma colaboração adequada com os pares, torna-se extremamente difícil de executar.
O ponto central que quero destacar é a questão da maturidade. Quando iniciei esse projeto, não era possível simplesmente chegar à organização propondo discoverys estratégicos de produto por meio do Design. Havia um longo caminho a percorrer, onde as pessoas precisavam compreender as possibilidades que o Design poderia oferecer, algo que só seria viável por meio de experimentações.
Com o tempo, conseguimos evoluir e fazer o trabalho fluir além da concepção de interfaces com melhor usabilidade. O Design passou a ser uma ferramenta para entender cenários e tomar decisões estratégicas relacionadas à escalabilidade de produtos. Ou seja, tudo aconteceu no momento certo. As pessoas adquiriram um repertório mais refinado e estavam mais preparadas para lidar com novos tipos de projetos que utilizam o Design como meio estratégico.
Atualmente, estamos em um momento no qual precisamos avançar na maturidade do uso de dados, não apenas na coleta, mas também na análise. Embora já realizemos pesquisas focadas na experiência do usuário e na escalabilidade dos produtos, há muitas oportunidades para aprimorar nossa abordagem. Com o volume crescente de dados, que abrangem aspectos relacionados a consumo, cultura e economia, surge a necessidade de refinar nossas práticas. Considero este o principal desafio da minha carreira no momento.Além disso, outros fatores estão em evidência, como as automatizações impulsionadas pela inteligência artificial. Essas iniciativas, no entanto, também dependem de decisões baseadas em dados, o que exige um nível maior de complexidade. Não se trata apenas de considerar a experiência do usuário, mas de integrar experiência, negócios e tecnologia de forma coesa.
É claro que investir nesse tipo de trabalho conflita com outros fatores, especialmente o tempo de entrega. Estamos em um mercado cada vez mais competitivo, que exige respostas rápidas.
Muitas vezes, as organizações agem de forma impulsiva diante de ameaças da concorrência, o que dificulta a alocação de investimentos a médio e longo prazo para iniciativas mais eficazes baseadas em dados.
A cultura de produto inclui a cultura de Design, e é nela que as decisões estratégicas são tomadas. Se o produto não adota uma visão mais aprofundada sobre os temas com os quais interage, dificilmente o Design conseguirá se posicionar como um meio para explorar novos horizontes, tornando-se inviável nesse contexto. Por isso, o foco agora é trabalhar para evoluir essa cultura de dados em produto, de modo a colher os frutos no futuro.
5. Como é um dia típico de trabalho para designers? O que você faz e onde costuma concentrar mais energia?
Atualmente, no time em que trabalho, atuamos em uma grande diversidade de projetos, que vão desde processos de ideação de iniciativas já mapeadas até projetos estratégicos focados em discovery. Basicamente, cada pessoa de Design do nosso time é responsável por um projeto, participando de uma das modalidades mencionadas anteriormente.
Em cada projeto, geralmente temos um core team, no qual a pessoa de Design é responsável por facilitar todo o processo. O core team atua em conjunto com ela, trazendo perspectivas multidisciplinares sobre o tema, seja de negócio ou de tecnologia. Esse time participa das coletas de pesquisa, da ideação e da tomada de decisões em cada uma das etapas.
Após a conclusão do trabalho, quando a iniciativa envolve o desenvolvimento de interfaces, a pessoa de Design realiza o hand-off com o time de desenvolvimento e acompanha o processo até que o produto seja finalizado. Posteriormente, também é feito o monitoramento do uso da solução por meio de métricas.
6. Designers devem se preocupar com outras disciplinas estudando sobre Design? Existe o risco de generalização do Design de Produtos Digitais?
Acredito que dificilmente uma pessoa de Design consiga realizar um projeto sem estudar outras disciplinas, pois isso está, basicamente, na essência do que fazemos. Além disso, acredito que uma pessoa de Design deve, sim, se relacionar com outras áreas. Não é necessário se tornar especialista, mas é importante ter conhecimento para facilitar o entendimento e a comunicação.
Por exemplo, uma pessoa de Design que trabalha no universo da tecnologia não precisa, necessariamente, programar, mas é fundamental que entenda as possibilidades técnicas para conseguir transitar bem durante um projeto.
Sobre a questão da generalização, vivemos em um mundo em constante mudança, e a tecnologia nos ajuda a realizar tarefas que antes eram morosas de forma mais simples e, muitas vezes, automatizada. Por isso, é natural que a pessoa de Design olhe para outras frentes, mergulhe em novos assuntos e, em alguns casos, acabe se tornando generalista.
Esse cenário também reflete a maturidade das organizações. Há empresas que comportam especializações, como pesquisa e ops, enquanto, em outras, a pessoa de Design acaba assumindo todas as funções. Por isso, é importante direcionarmos nossa carreira, buscando a iniciativa que mais nos agrada e que esteja alinhada ao nosso propósito de vida.
Seja como generalista ou especialista, a jornada é nossa e a escolha também. No entanto, tudo depende do nosso preparo para estarmos onde queremos estar.

1. O que é mais importante saber para quem está começando? Há algo que você gostaria de ter aprendido antes de entrar na área?
Na minha visão, hoje em dia, o mais importante é aprender bem os fundamentos das disciplinas que compõem o Design: fundamentos de pesquisa, facilitação, articulação de decisões, design visual, sistemas de design e desenvolvimento de processos de trabalho. Claro que, dentro de cada um desses temas, existem diferentes níveis de maturidade. No entanto, percebo que muitas pessoas ainda aprendem processos em cursos focados em experiência do usuário e acreditam que esses métodos servirão para todas as situações em sua jornada profissional, o que não é verdade.
Resgatar os fundamentos relacionados a esses pontos que mencionei pode ajudar na adaptação de processos, permitindo usar o Design como um meio para desenvolver soluções eficazes e desempenhar um papel extremamente relevante na escalabilidade dos negócios. Assim, o Design se torna uma peça essencial para os times.
2. Na sua visão, existe alguma disciplina por onde faça mais sentido começar?
No cenário atual do mercado, percebo que a abordagem generalista oferece mais oportunidades. Ou seja, é interessante que quem deseja entrar na área explore um pouco de diversas disciplinas do Design.
Dito isso, entre todas essas disciplinas, vejo que as organizações têm uma grande demanda por pessoas que saibam lidar bem com pesquisa. Em um mundo repleto de informações, a capacidade de explorar um tema de forma direcionada, coletar dados de qualidade e realizar análises bem estruturadas se torna um grande diferencial.
Por isso, hoje, eu investiria em adquirir conhecimentos amplos sobre diferentes áreas do Design, mas com um foco inicial em pesquisa.
3. O que você acredita que designers de produtos digitais iniciantes não podem deixar de aprender?
Como mencionei anteriormente, acredito muito na importância das disciplinas de pesquisa, mas a facilitação também é essencial. Um projeto bem facilitado por uma pessoa de Design pode impulsionar a escalabilidade de um produto e gerar um excelente retorno, não apenas financeiro, mas também em termos de impacto positivo na percepção da marca pelos consumidores.
Facilitar não é uma tarefa simples, pois exige a habilidade de extrair as diferentes visões das pessoas sem enviesá-las, além de alinhá-las em torno de um objetivo comum que precisa ser alcançado.
4. Quais são os principais erros e acertos que você percebe em pessoas que estão entrando ou migrando para a área?
Um dos principais erros seja talvez seja o fato de muitas pessoas ficarem presas aos primeiros processos que aprendem, sem explorar outras abordagens e ferramentas, deixando de trazer os fundamentos à tona como disse antes.
Por outro lado, um grande acerto é que, atualmente, as pessoas fazem mais networking do que aquelas que começaram na área anos atrás. Isso contribui para um senso de comunidade mais forte, onde todos se ajudam a crescer. Vejo que quem está começando faz isso muito bem, enquanto profissionais mais sêniores, muitas vezes, pecam por não interagirem tanto nas comunidades.
5. E para quem busca evoluir na carreira, quais erros você entende que devem ser evitados?
Achar que sabe tudo. Muitas pessoas, à medida que evoluem na carreira, acreditam que já aprenderam o suficiente e deixam de buscar novos conhecimentos, especialmente teóricos, ficando presas às suas próprias crenças.
É fundamental reciclar constantemente nossos conhecimentos, revisitando os fundamentos, a teoria e, claro, aprimorando também a prática. Isso nos mantém atualizados com as demandas do mercado e nos permite não apenas evoluir em nossa maturidade profissional, mas também contribuir para o desenvolvimento do ecossistema de produtos e serviços do qual fazemos parte.
6. Na sua visão, quais características técnicas diferenciam um designer Júnior, Pleno e Sênior?
As principais diferenças que percebo entre esses perfis estão na bagagem profissional adquirida ao longo dos anos. Um perfil mais sênior já se deparou com diversas situações que, com o tempo, tendem a se repetir. Isso permite que essas pessoas lidem melhor com desafios, já que muitas situações deixam de ser novidade.
Além disso, profissionais com maior senioridade estão mais aptos a olhar além das disciplinas do Design. Devido ao repertório mais avançado, conseguem ter uma visão mais holística, entendendo como outras áreas se conectam com o design e facilitando a integração entre elas.
Uma pessoa júnior, por outro lado, ainda não possui esse repertório e tende a se concentrar mais nos conhecimentos específicos de Design. Já o perfil pleno está em um período de transição, começando a ampliar sua visão. O perfil sênior, por fim, é o que apresenta maior sinergia com essas características que mencionei.
7. Como você enxerga a trajetória até alcançar o nível Sênior em Design de Produtos Digitais?
Não é uma trajetória fácil e depende muito das conexões e experiências adquiridas ao longo da jornada. A maturidade das organizações por onde a pessoa passa influencia significativamente no desenvolvimento da sua senioridade. Por exemplo, alguém que constrói sua carreira em uma organização com baixa maturidade em Design e produto terá uma experiência bem diferente de quem passa por empresas com alta maturidade nessas áreas.
Por isso, é importante considerar esses fatores ao tomar decisões sobre os próximos passos na carreira. O fato de você ser sênior em uma empresa não garante que terá o mesmo reconhecimento em outra. Às vezes, é necessário dar um passo para trás para poder avançar de forma mais sólida.
Também vejo que a jornada de uma pessoa sênior envolve estar disposta a experimentar, errar e evoluir com base nessas experiências. Só assim conseguimos construir um repertório consistente, e isso exige muita atitude. Por isso, a combinação entre prática e teoria é fundamental para o crescimento profissional.
8. Como você escolhe quais temas estudar? Baseia-se nas demandas do mercado, nas tendências, nas capacidades tecnológicas ou em outros fatores?
É claro que o nosso dia a dia pode influenciar o que devemos estudar e como evoluir. No entanto, acredito que a busca por conhecimento deveria surgir da essência do que o Design representa: deveríamos ser curiosos por natureza. O Design abrange muitas disciplinas porque foi construído sobre métodos científicos e criativos impulsionados pela curiosidade. Por isso, acredito que nossa evolução profissional deveria seguir essa mesma lógica.
Quando busquei conhecimento sobre neurociências, o que mais tarde deu origem ao meu primeiro livro, foi porque tive curiosidade em entender como os estudos sobre comportamento humano poderiam enriquecer meus projetos de pesquisa. Acredito que esse tipo de abordagem baseada em nossa atitude querer explorar mais deveria ser o nosso principal motivador.

1. Qual dica você daria sobre portfólio para quem está começando? Quais critérios ajudam a estruturar um portfólio efetivo e quais atributos não podem faltar?
Quando falamos em portfólio, geralmente pensamos nos entregáveis visuais, onde as pessoas procuram destacar suas habilidades com ferramentas, como o Figma. No entanto, muitas vezes esses entregáveis não apresentam o contexto da solução, e, principalmente, não mostram o processo que levou até ela — e esse talvez seja o ponto principal que recrutadores e gestores querem ver e entender antes de contratar.
Saber como a pessoa de Design identificou as necessidades, reconheceu oportunidades de melhoria ou até mesmo propôs uma solução totalmente nova é essencial. Além disso, demonstrar habilidades práticas de facilitação e a capacidade de articular decisões ajuda a revelar como a pessoa pensa o Design como um meio para chegar aos protótipos, e não apenas como o resultado final.
Quando todo esse processo está claramente evidenciado, temos um portfólio significativo, que realmente reflete o trabalho da pessoa no dia a dia. Por isso, a dica que deixo é: sempre utilize os recursos do storytelling na hora de montar as apresentações dos seus projetos.
2. Como desenvolver conhecimento em Design por meio de cases fictícios? E, na sua opinião, de que forma eles ajudam na busca por vagas?
Projetos fictícios sempre apresentam uma linha tênue, e, por isso, acredito que tudo depende de como eles são conduzidos. Se a pessoa desenvolve um projeto voltado para um produto muito grande, propondo rebrandings ou uma reestruturação visual completa, vejo pouco benefício nisso. Isso porque há várias variáveis que a pessoa não conseguirá abordar nesse tipo de trabalho, como decisões de negócios e a interação com a estratégia da empresa.
Se a ideia for apostar em projetos fictícios, acredito que o mais interessante seja focar em algo menor, como ajudar uma pequena empresa que está começando ou uma ONG, por exemplo. Dessa forma, é possível ter acesso a mais informações sobre o tema explorado e realizar um projeto que contemple melhor os desafios e o contexto do mundo real.
3. Como você acredita que um Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) pode ser estruturado para proporcionar um desenvolvimento concreto?
O grande problema dos PDIs hoje em dia é que, muitas vezes, esses planos são elaborados sem uma imersão mais profunda para entender em que momento a pessoa está na carreira e, o mais importante, onde ela quer chegar. Fazer essa análise detalhada, revisando pontos fortes, pontos de melhoria e os motivadores por trás de cada um, ajuda muito a potencializar o que já funciona bem e a corrigir o que precisa ser aprimorado.
Além disso, o plano deve estar alinhado com os objetivos de carreira da pessoa, garantindo que o fortalecimento das habilidades e as melhorias estejam em sinergia com esse foco. Um erro comum que observo é quando as lideranças direcionam o desenvolvimento apenas para atender às demandas da empresa. Embora isso possa ser útil em certos momentos, não necessariamente contribui para que a pessoa alcance seus objetivos profissionais de longo prazo.
É claro que a evolução de cada profissional também depende de sua própria iniciativa. É utopia acreditar que apenas a empresa será responsável por esse desenvolvimento. Por isso, é fundamental buscar conhecimento e praticar além do período dedicado ao trabalho. No entanto, se a empresa oferece um plano de desenvolvimento, as oportunidades devem ir além das necessidades imediatas da organização, considerando também o crescimento individual e o propósito de carreira do profissional.
4. Pensando em quem está em busca de novas oportunidades, como mostrar conquistas e resultados ao pleitear novas posições?
Um portfólio bem estruturado é parte fundamental desse processo, mas, hoje em dia, vejo que ter um bom posicionamento no mercado é igualmente importante. Para conquistar méritos e promoções, o primeiro passo, na minha opinião, é ter sinergia com perfis multidisciplinares dentro da empresa. Saber "vender" o Design como um meio eficaz para escalar soluções é extremamente significativo e destaca o valor das disciplinas que compõem o Design.
Agora, se o objetivo é mudar de empresa, o caminho é explorar o networking com pessoas que já trabalham lá. Procure entender como elas pensam o Design, qual é o nível de maturidade da organização nesse aspecto e se há sinergia com o seu perfil. Caso exista, adapte a forma de comunicar suas entregas para a linguagem e cultura que a empresa já pratica. Assim, quando surgirem oportunidades que se alinhem ao seu perfil e aos seus objetivos, você estará bem preparado.
Participar de eventos, painéis ou até mesmo apresentar seu trabalho em meetups também pode ser uma ótima forma de aumentar sua visibilidade no mercado.

1. Como você gostaria que fosse o futuro do Design? E o que seria necessário para que esse futuro se concretize?
Sabemos que, para desenvolver um produto digital, em algum momento será necessário o envolvimento de um time de desenvolvimento, responsável pela programação em alguma linguagem. Seja de forma direta ou indireta, a participação desse time é inevitável. Esse fator já é amplamente aceito e se tornou um processo natural e fluido, pois é comum entendermos que um produto digital precisa passar por etapas de programação. Ninguém precisa aculturar as pessoas sobre isso, já que o valor desse processo é implicitamente reconhecido.
O meu desejo é que o Design alcance o mesmo nível de reconhecimento. Espero que, um dia, os processos de Design sejam tão fluidos e indispensáveis na composição de produtos e serviços quanto a programação já é.
Apesar de algumas organizações apresentarem uma maturidade de Design mais avançada, ainda é necessário vender esse valor internamente. O processo de aculturamento continua essencial, seja para mostrar a importância de realizar uma pesquisa, facilitar uma ideação ou validar hipóteses. Muitas vezes, há barreiras em relação ao tema, e é comum que pessoas envolvidas no projeto, ou até mesmo tomadores de decisão, preferem pular essas "etapas" para iniciar logo a prototipagem, com o argumento de que isso economizaria "tempo."
É claro que já evoluímos muito nos últimos anos, mas ainda temos muitos desafios pela frente até que o Design se torne tão integrado e natural quanto o ato de programar um sistema.
Para alcançar esse nível, vejo que também precisamos aprimorar a forma como nos comunicamos com nossos pares. É importante tornar o Design mais fluido e integrado à rotina deles, evitando nos posicionar como os "diferentões", utilizando jargões específicos das disciplinas que podem afastar ou confundir. Muitas vezes, acabamos complicando processos que poderiam ser mais simples e acessíveis, transmitindo a ideia de que o design é algo distante da realidade deles, quando, na verdade, poderia ser apresentado de forma mais clara e prática. O nosso posicionamento, nesse caso, pode transformar algo simples em algo que parece mais complexo do que realmente é.
2. Quais oportunidades você enxerga para a evolução da nossa disciplina de Design de Produtos Digitais?
Vejo que ainda temos muitas oportunidades de integrar o design às estratégias das organizações, posicionando a experiência de produtos e serviços de forma intrínseca nas discussões sobre entrega de valor e como isso pode se tornar rentável para as empresas. Além disso, percebo a chance de explorar o Design em outros aspectos das jornadas do usuário.
Como o mercado de tecnologia abraçou o Design, normalmente estamos mais envolvidos com a experiência de interfaces, deixando de contemplar a jornada completa do usuário. Experiências de atendimento em hospitais, restaurantes ou concessionárias, por exemplo, são pouco exploradas, e vejo nisso uma grande oportunidade para que o Design também atue nesses contextos.
É provável que, em algum momento desse atendimento, existam interações com interfaces, especialmente no cenário tecnológico atual. No entanto, a jornada do usuário vai além das telas e merece a mesma atenção que dedicamos ao digital.
3. Como você acredita que a Inteligência Artificial vai impactar o trabalho em Design?
Na realidade, vejo que essa mudança já está em curso. Hoje, temos a oportunidade de usar a IA para realizar análises e gerar insights, além dos recursos generativos, como a criação de imagens e textos, que podem nos oferecer novas perspectivas e aprimorar nossas ideias. O poder de automação da IA também tem sido benéfico para a composição dos próprios produtos e serviços, permitindo que aumentemos a performance e a autonomia na rotina das pessoas que utilizam as soluções que desenvolvemos.
Para nós, designers, existe a chance de automatizar tarefas do dia a dia, liberando tempo para focarmos em questões mais complexas do nosso trabalho. Por isso, vejo essa evolução tecnológica com bons olhos, pois ela contribui, de certa forma, para a evolução da maturidade do Design — ou, ao menos, deveria.
4. Como você vê a próxima geração de designers de produtos digitais?
Isso vai depender muito do repertório que a nova geração vai construir para sabermos, de fato, como será a entrega deles. Vejo que o papel da educação, no sentido de apresentar o que realmente são as disciplinas de Design, é fundamental. Se a abordagem focar apenas em ferramentas ou "receitas de bolo" quando falamos de processos, há grandes chances de termos uma evolução bem lenta na maturidade do Design.
Por outro lado, se as pessoas, com seu próprio senso crítico, buscarem alternativas que apresentem os fundamentos do Design, alinhando prática e teoria, e executarem atividades entendendo os motivadores por trás delas, acredito que essa próxima geração pode contribuir muito para levar o Design a lugares que nem imaginávamos.
Espero, de verdade, que esse segundo cenário seja o mais viável e que isso possibilite a criação de produtos e serviços ainda melhores no mercado, com o Design atuando de forma colaborativa com outras disciplinas e ajudando a escalar nossa economia. Todo mundo só tem a ganhar com isso, e torço muito para que aconteça.
Sobre o Alex
Formado em Ciência da Computação, Design, Marketing e Neurociências, é designer em Ribeirão Preto desde 2010, trabalhando com marcas de grande expressão no mercado. Atualmente exerce a função de Design Lead na TOTVS.
Na área acadêmica, atua como professor e mentor desde 2015 em cursos e aceleradoras de startups. Também é autor da Casa do Código, com o livro Design com Neurociências – Desvendando o comportamento humano para seus projetos .
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Gabriel é estrategista, autor e palestrante. Publicou livros sobre design estratégico, já palestrou na UX Conf e em empresas como Itaú, Boticário, Magazine Luiza, Ifood e Livelo. Formado em design de produto, é sócio da PunkMetrics e já trabalhou em empresas como Wine.com.br, Autoglass, SKY, Handmade e Thoughtworks. Além de ajudar no desenvolvimento de outros designers, é especialista em temáticas como estratégia, ecossistemas, inovação e educação.
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